Estudo Acompanhado: aprender a conhecer-se, aprender a aprender, aprender a ser

No conjunto das medidas implementadas pela reorganização curricular do Ensino Básico, a Área de Estudo Acompanhado parece-me constituir um espaço particularmente fecundo e promissor. Uma escola em crise, que convive com o insucesso de largas franjas da sua população, precisa, urgentemente, de se repensar e reinventar. Sendo a catedral da aprendizagem, é imprescindível que, nela, se reflicta sobre o acto de aprender e se equacionem os seus processos, condicionantes e papel no desenvolvimento integral da pessoa. Só assim será possível uma intervenção que, acolhendo as diferenças, ofereça, realmente, uma igualdade de oportunidades a todos.

Porque “o espírito é, ao mesmo tempo, inteligência e sentimento, razão e coração, actividade lógica e não lógica” (Alexis Carrel), circunscrever o acto de aprender à componente cognitiva é não só redutor como incorrecto. A razão, com a sua multiplicidade de factores, em interacção com as componentes afectiva e social, articula um todo que se vai moldando, paulatinamente, ao longo do tempo. Por isso, como bem diz Basarab Nicolescu, é hora de provocar o “surgimento de um novo tipo de inteligência, baseado no equilíbrio entre a inteligência analítica, os sentimentos e o corpo”. Não dependendo a qualidade do desempenho individual apenas do saber, julgo que o trabalho, nesta área, se deve organizar em torno de três eixos estruturantes: aprender a conhecer-se, aprender a aprender e aprender a ser.

1 – Aprender a conhecer-se
Reflectir sobre quem se é, como se é e o que se quer é o ponto de partida e a base de apoio da aprendizagem durante toda a vida. Por esta auto-análise se consciencializa o modo pessoal de aprender, as dificuldades, as expectativas, as capacidades, os níveis de motivação e auto-estima, as qualidades de trabalho e de organização… Descobrem-se os principais obstáculos à aprendizagem e ao sucesso pessoal. Compreende-se que este não depende apenas do que se sabe, mas também de outras competências de ordem social e afectiva.

Sendo a auto-imagem determinante na motivação para a acção, é essencial identificar e analisar as crenças pessoais negativas a fim de se programarem acções que as eliminem e conduzam ao pensamento positivo. A identificação e compreensão de um problema é o princípio da sua resolução, porque gera abertura às estratégias correctoras e mobiliza os esforços individuais no sentido da sua resolução.

2 – Aprender a aprender
Conhecer, o melhor possível, o funcionamento pessoal, a todos os níveis que estruturam a personalidade, prepara para outra etapa em que os esforços se devem orientar, essencialmente, para os seguintes aspectos:
– desenvolvimento da capacidade de auto-organização, em função de objectivos;
– domínio dos materiais de trabalho;
– descoberta dos métodos e técnicas mais eficazes nas várias situações de aprendizagem.

No âmbito de organização pessoal, destaca-se:
– o controlo das variáveis pessoais e do meio que dificultam a atenção e a concentração nas tarefas;
– a organização de um horário que inclua todas as actividades em que se reparte o dia;
– a adequação do local de estudo.
O bom conhecimento e o correcto manuseamento dos materiais de trabalho são importantes apoios para a construção do saber.

No desenvolvimento do processo cognitivo, a atenção deve centrar-se na aquisição de competências a nível da leitura, da escrita, da memorização e da resolução de problemas.
Como, na relação com o saber, o texto escrito é o mediador mais importante, a ele se deve dedicar significativa fatia do tempo disponível.

O trabalho individual deve alternar com o trabalho de grupo, já que ambos se completam.
A avaliação contínua das actividades, verdadeiramente reguladora de todo o processo, permite introduzir nela os ajustamentos e as reorientações que se impuserem.

3 – Aprender a ser
No final da escolaridade básica, espera-se que todos atinjam um grau de capacitação que os habilite a resolver os problemas do quotidiano e a desenvolver comportamentos adaptados às exigências da vida, do trabalho e do exercício responsável da cidadania. O processo de construção pessoal, embora nunca acabado, deve atingir um nível de auto-organização e de auto-regulação que permita saber estar em sociedade, fazer escolhas, tomar decisões, resolver os conflitos internos, gerir os limites pessoais e expressar-se racional e emocionalmente de modo assertivo. Pela progressiva conquista do sentido da vida e do mundo, saberes, capacidades e competências conjugam-se na tarefa da construção do projecto pessoal.

Esta área constitui, verdadeiramente, uma oficina de procura de sentidos e de treinamento das capacidades transversais a toda a aprendizagem, sendo, por isso, condição para a construção de um projecto com futuro e para o futuro.

Maria Leite Correia in Netprof

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